Utopia (II)
Utopia (substantivo feminino)
1. projecto de governo que, a ser exequível, asseguraria a felicidade geral;
2. projecto imaginário, irreal;
(Do gr. oü, «não» +tópos, «lugar», pelo lat. Utopìa-, «utopia, lugar que não existe»)
quimera (substantivo feminino )
1. MITOLOGIA monstro lendário, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão;
2. figurado fantasia; ilusão; utopia;
3. figurado absurdo;
4. BOTÂNICA organismo vegetal, misto, constituído por tecidos diferentes;
5. ICTIOLOGIA designação (por aportuguesamento da designação científica do género Chimaera) dos peixes holocéfalos, de corpo alongado, mais vulgarmente conhecidos por papagaio-do-mar, peixe-rato e rato;
(Do gr. khímaira, «monstro fabuloso», pelo lat. Chimaera-, «id.»)
http://www.infopedia.pt/homepage.jsp
A propósito dos comentários ao post anterior.
Sem querer desculpar a minha ignorância congénita por só ter descoberto a palavra utopia com uma dúzia de anos, gostaria de chamar a atenção para as definições acima de um dicionário on-line acabadinho de consultar. Admito, não levantei o meu traseiro do sofá para ir consultar os dicionários em papel que tenho cá por casa, mas sendo esta edição on-line da Porto Editora, julgo poder usá-la como referência.
Da génese grega da palavra temos o seu significado original – não lugar ou o lugar que não existe. Não existindo, de que forma é que essa não existência poderia melhorar de algum modo a vida que vivemos. Como um objectivo inatingível mas que serviria como um íman dos nossos percursos. E se a memória não me falha, que nem a história nem a filosofia são matérias que domine, o segundo sentido de utopia, como o lugar da felicidade, é um conceito que surge no século XIX em Inglaterra e em França, ligado aos movimentos sociais. Saint-Simon, Robert Owen e Charles Fourier ficaram conhecidos por socialistas utópicos. Em comum, uma ideia de que era possível organizar a vivência humana, o espaço e as formas de produção de uma forma mais justa e equitativa para todos. E em comum também o facto de nenhum deles ter vingado …
A utopia, se atingida, necessariamente seria um não movimento…
Mas a ideia subjacente a este texto é outra bem diferente, é que a quimera de um mundo melhor, a utopia, esse lugar ideal que não existe é o que nos inspira a caminhar. Chegar lá não é o importante, o importante é o percurso que se faz. E o percurso só se faz porque existem ideais a atingir, ou a procurar atingir.
E podem continuar a puxar-me as orelhas … existem muitas coisas que descobri muito tarde, outras cedo demais, mas é do somatório dessas experiências, desses erros, das ignorâncias, das pretensas sabedorias, dos sofrimentos, das alegrias, dos debates mais ou menos acessos, que eu me fiz quem sou, por isso não me envergonho de só ter descoberto a palavra utopia com 12 anos.




Eu tinha mais de doze anos, e mesmo assim descobri o termo e comecei a aprender o sentido de «Utopia» muito cedo.
Quem viveu e cesceu antes do 25 de Abril que avalie, ou que avalie que tiver senso para tal.
Tal como tu, li o livro “Projecto e Utopia”. Obrigatório para algumas cadeiras na Universidade.
Já agora. Não me envergonho das datas das minhas descobertas. Foram quando foram, e ainda bem que existem.
Cara Maria:
A questão da referência à idade não teve nada de qualquer ironia. Eu simplesmente não me lembrava da idade que estava referida no teu comentário como aquela da descoberta do significado da palavra utopia. E, bom, não teria mal nenhum em nenhum sentido que a descoberta tivesse ocorrido aos doze em vez de aos quinze.
Quanto ao significado da palavra, ela, a utopia ganhou após o seu surgimento (como conceito ocidental surgido nos países que referes mas iniciado no século XVI com a publicação por Thomas More do livro A Utopia; e depois tendo florescido este conceito já com características que se podem chamar de filosofia social nos século XVIII e século XIX com as figuras que referes, devendo acrescentar-se-lhes, pelo menos, o nome de Proudhon) uma atracção e um fascínio enormes tanto de escritores ficcionais como de pensadores filósofos. Para não tornar o comentário longuíssimo, refiro só que a escola dos maiores filósofos contemporâneos ao fim do século XX praticamente toma a utopia como a grande questão humana a reflectir, discutir, e “resolver”; não havendo praticamente nenhum filósofo contemporâneo que não se tivesse debruçado sobre a utopia.
Quanto às significações de dicionário, é verdade que quase todos convergem quanto ao significado da palavra utopia mas, contudo, existem autores filósofos ou estudiosos de filosofia que lhe atribuem significados convergentes e significados variantes, não podendo pois o significado atribuído por um determinado dicionário ser o que prevalece mas sim o que lhe é relativo.
O mesmo se aplica à palavra quimera. E, neste caso, até temos um belo “dicionário” que lhe atribui um significado que não pode deixar de ser “lido”: o filme de Charlie Chaplan chamado “A Quimera do Ouro”.
Abraço.
E descobriste muito atempadamente…
Ecce, a palavra “utopia” na história contada foi tomada no sentido comum da mesma, isto é, aquela que vem referenciada nos dicionários não específicos. E sendo a acusação feita a de não ter consultado um dicionário antes de ter feito o comentário demonstrando assim ignorância, acho estranho que depois venha falar das diversas correntes e da forma como cada define a palavra em detrimento da definição apresentada no dicionário.
Como em qualquer área, quando se passa do conhecimento comum para um conhecimento específico, os assuntos ganham profundidade. Não podemos é esperar que todas as pessoas dominem todos os assuntos em todas as suas dimensões.
Este é um blog sem qualquer aspiração a ser um blog de divulgação de conhecimento cientifico, muito pelo contrário, assenta muito em sensações e na não necessidade de as justificar.
Agradeço de qualquer forma os esclarecimentos posteriores aos comentários iniciais, feitos de uma forma bem mais calma e ponderada, que é o que se pretende. Também eu ás vezes me deixo levar por ímpetos e acabo a ser mais ríspida do que o pretendido, pelo que desde já me penitencio.
Maria:
Não é para aborrecer, mas para esclarecer no bom sentido; e atendendo à extraordinária importância que o conceito de utopia foi tendo desde a sua “fundação” até hoje, sendo hoje um conceito incontornável em qualquer discussão sobre o presente e sobre o futuro. Pode dizer-se que a utopia está hoje entranhada no pensamento humano ocidental. A relevância do assunto é hoje tão veramente importante para todos que o facto de teres colocado aquele texto sobre a utopia, independentemente da leitura interpretativa de cada um, foi autêntico ouro que colocaste no teu blog.
O que me incomodou e fez reagir, a bem da verdade e pela extraordinária importância do assunto, foi verificar na leitura dos primeiros comentários uma “leveza” ou “leviandade” reveladora de nenhuma leitura de qualquer livro sobre a utopia, havendo sobre a utopia, em Portugal, publicados dezenas e dezenas de livros que estão nas livrarias ao alcance de qualquer pessoa. E por assim verificar que a ideia geral tida sobre a utopia é uma ideia muito distorcida, somente como se fosse uma simples “impressão de que”, algo muito fluido, que a leitura da história que colocaste não poderia só por si elucidar essa fluidez do conceito. E provoca “aborrecimento” triste ler comentários sobre um assunto que pode dizer-se que é bem complexo, mesmo no seu sentido mais comum (porque mesmo o sentido mais comum, mesmo tomado à letra, provoca sempre interrogações), e comentários de conteúdo errado mas afirmados como de conteúdo certo. Ora isto em Portugal é típico: falar de uma coisa de que se ouviu falar de que se ouviu falar de que se ouviu falar, não sabendo pois sobre o “assunto de que se ouviu falar” coisa verdadeiramente nenhuma, porque não se lê sobre nada, mas todavia fala-se de tudo, e como sabendo de tudo. Esta preguiça intelectual dos portugueses é que é a base da sua iliteracia. Mas não digo que, em geral, as pessoas elas próprias sejam culpadas, isto pelo menos no que toca à génese do problema, que terá que ser ligado à questão da metodologia aplicada no campo educacional e cultural no nosso país.
Falando no dicionário, pois o dicionário (um qualquer) traz pelo menos a significação primordial (hoje praticamente etimológica) do termo utopia. E conhecer esta signicação primordial já é um avanço; porque ela encerra em si logo imediatas perguntas que fazem e farão pensar. Daí o meu apelo a que “pelo menos” abrissem o dicionário.
Quanto aos dicionários (vários dicionários diferentes), cada um é somente relativo a ele próprio (quer dizer, relativo ao ou aos autores do dicionário). Dicionários diferentes (de autores diferentes) são melhores ou piores na sua completude.
Para terminar aqui pela minha parte esta interessante discussão, deixo uma citação do significado da palavra utopia do DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA (enfim, um dicionário com seis volumes ou tomos, e considerado neste momento o melhor dicionário existente da Língua Portuguesa):
Utopia 1…
2…
3…
4 – “…projecto alternativo de organização social capaz de indicar potencialidades realizáveis e concretas numa determinada ordem política constituída, contribuindo desta maneira para a sua transformação.”
abraço.
“…, contribuindo desta maneira para a sua transformação.”
-Para caminhar, meu bom amigo…serve para caminhar!…”
Ecce, obrigada pelos esclarecimentos. Eu estou plenamente de acordo contigo com importância do tema, e com a forma leve como que se comenta, eu incluída, diversos assuntos, nos blogs e não só.
Vantagens destes comentários, para mim, o facto de me ter lembrado algumas coisas que estavam já esquecidas e vontade de conhecer mais algumas.
Desvantagens, tornar-se uma quezília constante, o que eu espero que nunca aconteça.
Nada do que li aqui altera a opinião que expressei no post abaixo.
Beijinho Maria, por seres como és após as tuas descobertas mais ou menos cedo.;-)
Mesmo aos arrogantes fica bem e é politicamente correcto tentarem a conciliação.
Também escrevi sobre a Utopia (o Livro)Ainda não o li todo, mas aconselho a toda a gente ler, porque se mantem actualizado em muitas coisas.
http://cronicaspostit.blogspot.com/2004/06/leitura-de-utopia.html
***